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Sylvie Shene 


 

Correio Dos Leitores

 

Pedido de Ajuda

 

Bom dia Sylvie,

 

Descobri o seu site ao pesquisar sobre alice miller, vi que partilha das suas ideias, e que se conseguiu curar...

 

Deixe-me falar um pouco de mim.

 

Chamo-me G., tenho 29 anos, sou mãe de uma menina de 2 anos.

 

Desde os meus 10-11 anos que sofro de sintomas obsessivos, que foram crescendo cada vez mais.  A minha mãe só me levou ao psiquiatra aos 17, que me diagnosticou uma “depressãozinha de adolescente”.  Mais tarde foi-me diagnosticada por outro psiquiatra uma neurose obsessiva, por volta dos meus 19 anos.

 

Quando comecei a ganhar dinheiro, decidi consultar um psicólogo.  Pela primeira vez foi estabelecida uma relação entre aquele “alien” no meu cérebro e a minha infância difícil, em constante confronto com a minha mãe, mas resisti muito em associar uma coisa com outra.  Como estava enganada!!

 

Após cerca de 3 anos de psicoterapia, a minha ginecologista diagnosticou-me endometriose, uma doença que pode dificultar ou até impedir a fertilidade.  Nunca quisera ter filhos, por ter medo de não os conseguir assumir, tendo em conta todas as minhas dificuldades pessoais.  Tive nessa altura de decidir se queria “arriscar”, pois se quisesse tê-los mais tarde, poderia vir a ter dificuldades em engravidar.  Pressionada pela sociedade, sabendo do desejo que o meu marido tinha de ter filhos, confiante que estava melhor e que seria capaz, lancei-me… e engravidei logo no segundo mês de tentativas.  A gravidez correu bem, senti um amor e uma plenitude que nunca me lembrava ter sentido na vida.  O meu psicólogo dizia-me que tinha feito bem, que um filho iria ajudar-me a resolver os meus problemas, que iria até compreender melhor a minha mãe depois de ter o meu filho.  Quão errado estava ele, quão perniciosa toda a lógica subjacente às afirmações dele!!

 

O final da gravidez foi marcado por complicações, tive de ser internada.  Mergulhei logo num estado de extrema ansiedade, que muito rapidamente (em dias) evoluiu para desespero e ideias suicidas.  Quando tive a minha filha estava a tomar calmantes e anti-depressivos (sem efeito, diga-se).  A minha filha nasceu com hipotonia e dificuldades respiratórias e foi internada. Nessa altura, do amor e da esperança iniciais, nada restava.  Não sentia nada por ela a não ser puro pânico.  Deixei de funcionar (nem conseguia conduzir) e fui internada na ala psiquiátrica do hospital, onde, à boa maneira da saúde mental deste país, nada foi feito a não ser encharcar-me em medicamentos.  Passadas 3 semanas parecia melhor, saí.  Passadas 2 semanas de ter saído mergulhei novamente no pânico mais absoluto.  Só o simples facto de segurar na minha filha me provocava um sofrimento dificilmente explicável.  Se não fosse pelo meu marido, tinha-a dado para adopção.  E cheguei a dizer-lhe: “Ou morre ela ou morro eu; não há lugar para nós as duas no mundo”.  Como, graças não sei a quê, nunca na altura senti ímpetos de violência para com ela (mas desejei que ela desaparecesse, o que só por si é arrepiante), apenas vontade de estar longe dela, virei todo esse desespero contra mim, e fiz uma tentativa de suicídio (tinha a bebé 2 meses).

 

Pouco a pouco, melhorei.  Voltei a “funcionar”.  Retomei o trabalho, aparentemente as coisas estavam bem.  Estranhamente (ou não…) os meus sintomas obsessivos quase desapareceram.  No entanto, NUNCA consegui estabelecer uma relação de verdadeiro afecto com a minha filha.  Muitas vezes ainda aparecia o velho demónio, a tentação de fugir.  O arrependimento de ter tido aquele bebé.  A sensação que nunca mais a minha vida vai voltar a ser o que era (e deus sabe que já era difícil).  Uma vaga depressão.  A fuga à realidade no trabalho, numa imitação de relação extra-conjugal, etc.  Há 2 anos que ando nisto.  O meu casamento está-se a desmoronar, devido a todos estes problemas.  O meu mau-estar com a minha filha não passa.  Muitas vezes, tenho de me forçar para estar com ela, brincar com ela, tratar dela.  Logo que posso delego essas tarefas ao pai.  Ela por seu lado é uma criança frágil, que adoece facilmente, o que certamente não é um acaso.

 

Há um tempo descobri o site da Alice Miller, ao acaso de pesquisas.

 

Fiquei tão mal-disposta que quase vomitei.  Foi um murro no estômago.  Eu sei, eu SINTO no mais profundo das minhas tripas, que ela tem razão, que a chave do mistério, a chave de todo o meu sofrimento e de toda esta paralisia desde que tive a minha filha me vem da minha infância.  Essa infância cujas feridas o meu anterior psicólogo desvalorizou, indo ao ponto de me considerar suficientemente “curada” e apta para eu própria ter filhos.

 

Estou de novo no fundo do abismo.  Tenho muitos pensamentos suicidas; estou naquele estado-limite em que ainda funciono, mas mais um empurrãozinho e deixo de o fazer.  Sinto um terror, uma agonia horríveis só de pensar no mal que já fiz à minha própria filha, quantas vezes lhe neguei os meus braços, o meu carinho, a minha atenção, por não ser, pura e simplesmente, capaz de os dar????  Todos os pensamentos que tive quando ela, inclusive, ainda estava dentro de mim, aquilo que disse (“Só me mantenho viva para ela nascer”, “Já nem me consegue interessar se ela está bem ou não”), a dimensão do horror dá-me vertigens.  Comecei a negar a sua existência, o seu direito a ser amada, antes até dela nascer.  Quando penso nisso, tenho mesmo vontade de morrer.  Não só a minha vida está condenada, como condenei a dela.  NUNCA deveria ter tido esta filha.  O peso do sofrimento, da culpa, do medo, estão a empurrar-me para os meus limites.

 

A única luz ao fundo do túnel… uma terapia.

 

E não tenho tempo, nem dinheiro, para desperdiçar.  É a minha última hipótese. Tenho umas poupanças acumuladas durante anos, é a elas que vou ter de recorrer.  É a minha vida, possivelmente a da minha filha também, que está em jogo.

 

Agora percebo que o meu anterior psicólogo, apesar das suas boas intenções, estava também ele enredado na lógica perniciosa que domina a nossa sociedade, o respeito aos pais, a repressão dos traumas de infância em nome do “amor” aos pais…  Deixou-me vislumbrar a origem do problema, para a seguir cobri-lo com argumentos e conselhos que me deixavam desconfortável, insatisfeita e culpada sem eu própria saber bem porquê (“Tens de construir um objecto-mãe mais positivo” ao mesmo tempo de “Já sabes que não podes esperar mais da tua mãe” e outras, empurrando-me sempre para o “perdão” e dessa forma para a negação e validade do meu sofrimento).  Agora que penso nisso, quando ele me disse: “Quando fores mãe vais perceber melhor a tua mãe”: é como diz a Alice Miller, é passar a violência e os maus-tratos de geração em geração, o que nos permite “compreender” melhor os nossos pais ao identificarmo-nos com eles e com o que nos fizeram, em detrimento dos nossos próprios filhos, sobre os quais projectamos todas essas mágoas!!!!

 

Quando tentei o suicídio, a minha mãe disse que se eu me matasse, ela nunca ajudaria o meu marido e a constança (a minha filha), que eu era uma egoísta, que as pessoas que fazem o que eu fazia não devem ligar as suas vidas às vidas de outros.  Na sessão de terapia que tive a seguir, contei isso ao psicólogo, muito magoada, e ele disse-me: “esquece agora a tua mãe; já sabes que não podes esperar certas coisas dela.  Concentra-te em ti e na na tua filha, mas tens de querer ficar melhor!”.

 

Na altura senti-me magoada, desconfortável, mas com o meu velho hábito de assumir a culpa de tudo, lá pensei que provavelmente ele tinha razão, e que eu era uma estúpida incapaz de se ajudar a si própria.  Agora percebo o meu mau-estar.  No fundo, TUDO tem a ver com a minha mãe.  É ISSO que é fulcral e enquanto isso não for sanado, não terei cura, e a minha filha arcará também ela, como uma maldição (já está a arcar), com todo o sofrimento e violência transmitidas de mãe para filha.

 

Hoje estou desesperada, à procura de um terapeuta que me possa ajudar REALMENTE.

 

Uma vez que viveu em Portugal, e está dentro destes assuntos, tem conhecimento de algum terapeuta aqui que responda a todas as "exigências" enumeradas pela Alice Miller?

 

Não sei mais como procurar, estou paralisada e tenho muito medo...

 

Desde já agradeço a leitura do e-mail, e a sua resposta. Não sei mais com quem falar, a quem pedir conselho...

 

Beijinhos,

 

G. E.

 

 

S.S.Querida G. E.,

 

Muito obrigada pela sua carta honesta.  Voce ja se esta a ajudar ao reconhecer a sua verdade, este e o primeiro passo, e e sempre doloroso.  Voce vai sentir sentimentos doloros comom ira, tristeza etc. escute e de atencao aos seus sentimentos que a guiaram no proximo passo a dar, e passo a passo vai reclamar a sua vida.

 

Infelizmente nao conheco nenhum terapeuta em Portugal que possa recomendar.  Ate hoje ainda nao encontrei um terapeuta iluminado em Portugal ou aqui na America.  Os livros e a website de Alice Miller foram a maior ajuda em me ajudarem a reclamar a minha vida.

 

Em que parte de Portugal vive a G. E.?  Tenho uma sobrinha em Portugal que tambem esta como voce, a reconher estas verdades dolorosas, mas sente-se muito sozinha porque nao tem ninguem com quem conversar e sente-se muito sozinha.  Tento lhe dar apoio o mais que posso daqui da America, mas nao e facil pois estou muito longe.  Acho que se falassem uma com a outro se podiam apoiar uma a outra.  Ela tem um filho de seis anos e tambem sentiu o que a Gisela esta a sentir.

 

Posso publicar a sua carta na minha website?  para outras pessoas e minha sobrinha verem que ha outras pessoas a sentirem os mesmos sentimentos.

 

Mais uma vez muito obrigada pela sua carta honesta.  sylvie

 


 

Uma Mãe Preocupada

 

Exmos Senhores:

 

Esta carta tem como objectivo explicar os motivos que me levam a pedir a transferência do meu filho da Escola das Pedras para a Escola Jasmim.

 

O meu filho que estava tão entusiasmado com o início das aulas ao fim de um mês de permanência nessa escola andava triste e já não queria ir para a escola.

 

O sistema de ensino não está a motivar, nem a incentivar as crianças a gostarem da escola e está a desmotivar as crianças a aprenderem o que é muito grave para um País que pretende sair da cauda da Europa em relação ao insucesso escolar e analfabetismo.

 

No 2º dia de aulas a professora disse ao meu filho que o desenho dele estava muito feio.O meu filho teve um grande desgosto, pois a professora Corina da pré-escola incentivava imenso as crianças a desenharem e até expunha o trabalho de todas as crianças.  O meu filho teve muitos trabalhos expostos nessa escola no findo ano lectivo.

 

O meu filho chorou imenso, nem sequer conseguiu comer o pão que levava para o lanche.  A professora não teve a mínima compaixão pelo sofrimento do meu filho e ainda disse que o passava para a pré-escola.  Não o respeitou nas duas situações.  Desde esse dia que o meu filho que adorava desenhar, em casa fazia-o habitualmente nunca mais pegou no papel nem na caneta.  Já falei com o Francisco sobre este problema várias vezes dizendo a verdade ao meu filho, que ele desenha muito bem, que tem um dom para o desenho mas o certo é que ele não tem desenhado como o fazia.  Este acontecimento marcou-o muito pela negativa e foi um desgosto tão grande para ele e não sei quanto tempo vai demorar para o ultrapassar.  Tenho a capa do ano passado com todos os trabalhos do meu filho, que com 5 anos mostra bem as suas capacidades, para as professoras que quiserem ver.  Falei com a professora Cândida sobre este assunto e pedi-lhe para ir à capa ver o desenho que tem o mar.  Simplesmente é um mar agitado e revolto com ondas grandes e incertas com o verdadeiro mar nas marés vivas.  O meu filho é uma criança extremamente observadora e conhece as características do mar e das ondas e é perfeitamente natural e compreensível que no 2º dia de aulas a mente dele estivesse agitada pois estava no 2ºdia de escola primária com uma professora nova e também alguns novos colegas e tudo isso passou para o desenho.

 

Na 2ª semana de escola a professora bateu com a régua ao meu filho para ele se sentar.

 

Ele estava sentado mesmo à frente do quadro lateral e levantou-se para apagar o que os colegas estavam a desenhar e a professora bateu aos 3 meninos.

 

Ainda não tinha decorrido o 1ºmês de aulas e a professora mudou todas as crianças dos lugares iniciais onde estavam sentados e ordenou-os pelos bons, mais-ou-menos e maus.

 

Tem as crianças divididas por estes critérios.  Considero esta divisão gravíssima para todas as crianças e peço a igualdade para todas as crianças da sala incluindo o Rodrigo que é o menino que passa mais tempo do lado dos maus, independentemente do comportamento (que é um sintoma que algo se passa com a criança), da facilidade/dificuldade de aprendizagem, tempo de aprendizagem (que varia de criança para criança) ou tempo que demoram a desenhar as vogais ou os ditongos ou a fazer qualquer outro exercício.  Gostaria muito que lessem o artigo da Jan Hunt, psicóloga e directora do “ The Natural Child Project” intitulado “Notas Escolares: Úteis ou Nocivas?”

 

A professora permitiu que uma mãe entrasse na sala de aula e desse autorização para bater no seu filho, caso ele precisasse de “apanhar”.  O mais grave é que essa mãe é directora da Escola das Pedras e estando a ocupar o cargo de directora deveria dar o exemplo máximo de respeito para com as crianças e principalmente com o seu próprio filho que pertence a esta classe.
Quanto à assiduidade já faltou dois dias e meio o que obrigou à sua substituição e logo as crianças tiveram de se adaptar a mais 2 novos professores para além da adaptação à professora Cândida que ainda se estava a efectuar.

 

Existe também um problema de segurança nos recreios da manhã e da tarde.  Nos recreios as crianças não estão a ser devidamente acompanhadas porque existe falta de colaboradores.  As crianças não estão em segurança, alguns meninos do 4ºano vêm bater nos do 1ºano e claro que estes com 5 e 6 anos não se podem defender dos de 9 ou 10 anos.  A força e a altura destes não permite que isso aconteça e por vezes vêm 2 ou 3 contra um dos mais pequenos.  Está a acontecer diariamente.  Dois meninos da 4ª classe vieram ter com o meu filho e um pegou nele e segurou-o e o outro bateu-lhe.  O que venho sugerir é que as professoras ajudem as auxiliares e também tomem conta das crianças no recreio.  A responsabilidade de todas as professoras não deveria terminar com o toque da campainha para o recreio mas sim manter-se durante todo o período em que estiverem na escola.  Tive conhecimento que no ano passado no recreio, na parte de trás da escola, um menino foi brincar nos montes caiu do muro abaixo e desmaiou.  É necessário e urgente para que tal não volte a acontecer proteger aquela zona com redes, de maneira a não permitir que as crianças tenham acesso a esse sítio para brincarem.  As crianças por natureza são muito corajosas e aquele espaço deveria estar resguardado.

 

Quanto à questão da alimentação o meu filho almoçava algumas vezes na cantina, os dias em que almoçava eram somente os dias em que não podia ir buscá-lo.  Recebi o seguinte aviso por parte da colaboradora que está no portão na entrada das 9 da manhã: ”Pediram-me para a avisar que o seu filho não pode almoçar na escola só nos dias de carne e que estão preocupados com a roda dos alimentos do Francisco”.  Quando efectuo a compra das senhas na Junta de Freguesia, o funcionário pergunta-me sempre quantas senhas é que eu quero comprar.  A pergunta que faço é esta:o meu filho para poder usufruir da cantina tinha de almoçar sempre ou podia almoçar somente nos dias em que precisava?

 

A questão que também coloco é a seguinte:qual o enquadramento legal para manterem o portão fechado à chave e não permitirem aos pais a entrada na escola (que mais parece uma prisão).  Considero a escola um espaço interactivo entre alunos,professores e pais o que não é possível derivado a esta regra imposta pelo agrupamento.

 

Perante este quadro negro a pergunta que faço é a seguinte: é permitido aos pais em Portugal ensinarem os seus filhos em casa e no 4ºano ou no fim de cada ano lectivo fazerem um exame e dar-lhes equivalência como se tivessem frequentado a escola (sei que nos EUA este sistema está implementado).

 

Peço muito aos responsáveis deste agrupamento que leiam com toda atenção estes problemas que serão só alguns dos problemas totais da Escola das Pedras e que tomem as medidas necessárias para resolver os problemas e poder tornar esta escola numa escola melhor, mais justa e mais fraterna porque a sala de aula ainda fica com 24 meninos que precisam de se tratados com Respeito e em Igualdadade para poderem aprender.  Esta fase, da escola primária, é decisiva na vida de qualquer criança e está nas vossas mãos modificá-la e acredito que todos os profissionais dessa escola poderão crescer e melhorar.  A escola para onde mudou o meu filho é o sonho tornado realidade por uma pessoa que estudou no Brasil e tem tão boas recordações da sua escola primária que resolveu construir uma em Portugal, parecida e com um método de ensino completamente diferente.  É a Escola Jasmim.Gostaria que também tomassem conhecimento do site com o endereço www.sylvieshene.com onde tem os links para o “The Natural Child Project”, site este que foi construído por uma pessoa que se preocupa muito com as Crianças.

 

Cumprimentos,

 

Fernanda Soares e seu filho Carlos Francisco Soares dos Anjos

 

 

S.S. Querida Fernanda e Francisco,

 

Parabens em reconhercer estas verdades dolorosas.  Muito obrigada por compartilharem esta carta comigo.  Sylvie

 

 

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