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Sylvie Shene 


 

Sobre Mim - MINHA HISTÓRIA

(Voltar para Sobre Mim - INTRODUÇÃO) 

 

O que acontece nas famílias acontece nos países, o que acontece nos países, acontece no mundo.  Eu sei, o que aconteceu em minha família acontece quase em todas as famílias à volta do mundo, até em extremos maiores, caso contrário eu não veria isto acontecer no palco do mundo.

 

Nasci no dia 11 de Março de 1959 numa pequena aldeia no Nordeste de Portugal, a mais jovem de dez filhos.  O meu pai sofria duma doença emocional e minha mãe também sofria da mesma doença.  Meu pai bebia para lidar com a sua dor emocional tornando-se viciado no álcool e minha mãe tornou-se coviciada ou codependente.  O meu avô abandonou o meu pai e a minha avó faleceu quando ele tinha nove anos.  Um homem viciado no álcool que era amigo de sua mãe tomou conta dele.

 

Meu pai casou com minha mãe quando tinha 24 anos, e minha mãe tinha 16 anos.  Este foi um matrimónio arranjado.  Minha mãe dizia: "Meus pais me casaram com este bêbedo."  Os padrões codependentes, estabelecidos cedo na minha vida, quase me mataram.  Eu fantasiava sobre a morte e cheguei a tentar o suicídio.  Eu nunca entendi porque motivo estava constantemente em relações abusivas e por que nada funcionava em minha vida, até que fui viver para os Estados Unidos e li sobre a codependência.

 

Portugal

 

Eu ganhei muitos conhecimentos e sinto a responsabilidade de compartilhar com os outros o que eu aprendi, especialmente em Portugal, que continua uma cultura muito fechada e cheia de segredos onde há muito pouco conhecimento das diferentes formas de abuso de crianças, do profissional não tratado, codependência e dislexia.  Eu quero usar a minha voz para falar, para ajudar a elevar a consciência.  Este é o motivo porque quero compartilhar minha história pessoal com o público.  Eu tenho esperança de encontrar um escritor com talento e iluminado para me ajudar a escrever o meu livro.  Publicar as minhas experiências e descobertas é algo que eu tenho que fazer.  Eu sei que se escrever um livro sobre as experiências da minha vida e descobertas, posso ajudar as pessoas a quebrar a ignorância, negação e elevar a consciência no mundo.

 

Deixe-me começar pelo princípio.  Como disse, eu era a mais jovem de dez irmãos, e minha irmã Marisa é três anos mais velha.  Todos os outros irmãos são muito mais velhos.  Minha irmã mais velha é 25 anos mais velha que eu.  Nós tivemos outra irmã mais próximo de nossa idade, mas ela morreu com sete anos.  Eu tinha dois anos e a Marisa tinha cinco anos.  Nós as três ficamos aos cuidados de meu irmão Ricardo que tinha dezassete anos.  Minha mãe tinha ido visitar meu irmão Manuel no hospital, que tinha sido gravemente ferido num acidente de viação.  Meu irmão deixou-nos sós para ir ajudar alguém a reparar uma máquina que tinha avariado pois meu irmão nasceu com a mente de engenheiro e todas as vezes que alguém na aldeia tinha problemas de mecânica vinham à procura dele.  Enquanto o meu irmão estava ausente, as roupas de minha irmã começaram a arder com as chamas da lareira, a Marisa e eu corríamos a gritar atrás dela, mas ela fugia de nós para não nos apegar as chamas.  Ninguém ouvia os nossos gritos porque nossa casa estava afastada um quilómetro da aldeia.  Quando o meu irmão veio a casa, ele pediu ajuda e levou minha irmã para o hospital da cidade, mas foi muito tarde, ela morreu uma semana depois no hospital, minha família nunca conseguiu falar e sentir a dor destes momentos dolorosos.

 

Aos sete anos comecei a primeira classe.  Eu estava muito excitada por começar a escola e ansiosa por aprender.  Infelizmente, no começo do ano contraí hepatite, fazendo-me perder o ano escolar.  Aos oito anos comecei de novo a primeira classe.  No nosso país havia uma escassez de professores para as aldeias pequenas.  Nesse tempo o ensino obrigatório era a quarta classe, o nosso país vivia sobre forte ditadura.  O governo tentou resolver o problema dando um curto curso intensivo para adultos com a quarta classe para ensinarem da primeira à quarta classe.  Imagino que no curso intensivo se esqueceram de ensinar a minha professora que as crianças não podem aprender se lhes baterem na cabeça com uma vara ao ensinar.  Eu perdi minha excitação por aprender e comecei a odiar ir para a escola.  A qualquer oportunidade que eu tinha fugia à escola.

 

As minhas duas irmãs mais velhas eram enfermeiras na segunda maior cidade de Portugal (Porto), quando eu tinha nove anos e a Marisa tinha 12, levaram-nos a morar com elas na cidade, para assim nós pudermos adquirir uma educação melhor.

 

Porto - Portugal

 

Ainda era tempo de verão, e nós fomos pela primeira vez à praia, ainda me lembro muito vividamente quando vi o oceano pela primeira vez, senti-o tão imenso!  Uma noite nós ficamos com duas enfermeiras enquanto minhas irmãs trabalharam, uma delas perguntou-me em que classe andava, eu disse que estava na segunda classe, então perguntaram se eu sabia quanto era 3+2, eu lembro-me de me sentir nervosa e assustada de lhes dar a resposta errada, olhei para minha irmã Marisa para orientação, ajuda e apoio, ela tinha-se unido às enfermeiras e disse-me para responder à pergunta, eu disse quatro em vez de cinco, elas começaram a rir-se de mim, senti-me humilhada e magoada, mas o que doeu mais foi que a minha irmã Marisa se riu junto com elas, senti-me tão só e abandonada por ela.  Naquele dia eu aprendi que estava só no mundo.  A Marisa sempre estava agradando a todos os adultos e conseguia fazer o que era esperado dela, tinha sempre boas notas na escola, toda a gente confiava nela e a admirava.  Eu sempre tinha más notas, ninguém confiava em mim e não conseguia comportar-me ao gosto de ninguém, diziam-me que eu nunca seria boa a nada e que eu era a vergonha da família.  A Marisa dizia que eu era um zero à esquerda e que não contava.  Agora eu compreendo que um dos meus problemas é dislexia, nunca tinha ouvido falar de dislexia até que me matriculei numa escola da comunidade nos Estados Unidos, e me disseram que eu era severamente dislexica.  De repente, todos os anos de luta e sofrimento que tinha suportado faziam sentido.  Identificar o problema fez uma diferença enorme, permitiu entender-me melhor, lidar com minha condição, e começar a deixar a vergonha que eu tinha assumido ao longo de minha infância, passei a ver o meu problema de aprendizagem como um presente em disfarce, impediu-me de cair nas mesmas armadilhas de meus irmãos e irmãs mais velhos, e ajudou-me a enfrentar as relações codependentes, especialmente com minha família. Eu estou grata, porque isto me fez parar de passar padrões doentes a outras pessoas, e gerações futuras, e me ajudou a quebrar o ciclo vicioso no qual eu tinha vivido.

 

Quando eu tinha 13 anos, meu irmão Emanuel que tinha 20 anos morreu num acidente de viação em Espanha depois de deixar uma festa, eu penso que ele estava intoxicado.  Demorou uma semana para o corpo chegar a Portugal.  Foi um tempo muito difícil.  Ninguém em minha família pôde falar sobre o que causou o acidente.  Nesse ano eu fugi de casa pela primeira vez porque minha irmã mais velha estava muito furiosa por eu ter faltado à escola, ela disse-me que nunca mais me queria ver e eu fugi, morei em estações de via-férrea e banheiros públicos até que a polícia me encontrou e telefonou à minha família.

 

No dia 25 de Abril de 1974 houve uma revolução em meu país para derrubar o regime fascista.  As salas de aula ficaram muito caóticas, tornando aprendizagem mais difícil.  Aos 15 anos de idade eu deixei de tentar e abandonei o ensino no sétimo ano, sentia-me tão só eu fantasiei sobre o suicídio.  Achar um trabalho em Portugal naquela época era como ganhar a lotaria, mas depois de procurar muito e com um bocadinho de sorte eu encontrei trabalho em num hospital, cuidando de bebés recém-nascidos no turno da noite, adorava o meu trabalho e pela primeira vez na minha vida eu estava feliz.

 

Minha felicidade foi de pouca dura.  Minhas irmãs mais velhas descobriram que eu saía nos meus dias livres.  Elas pediram a meu irmão na Espanha para me vir buscar para viver com ele.  Elas disseram a meu irmão que não me podiam controlar, e o que eu precisava era uma mão forte.  Ele recorria à violência para forçar a sua vontade em mim, e as suas três crianças pequeninas.  Ele fechou-me num quarto para assim eu não poder sair e fazer amigos com a mocidade local.

 

Uma vez mais eu estava-me sentindo completamente desesperada e não estava vendo uma saída.  Eu tinha um frasco cheio de tranquilizantes que minhas irmãs mais velhas me tinham dado para ficar mais controlável, eu tomei todos os comprimidos duma vez.  Minha cunhada me encontrou inanimada no meu quarto e levaram-me para um hospital. Quando eu acordei, as autoridades estavam vindo para me entrevistar.  Meu irmão ficou assustado e tirou-me do hospital, sem a permissão dos doutores e trouxe-me de volta para Portugal.

 

Espanha

 

Os empregos que a minha família me arranjava envolvia trabalhar todo o dia sem pagamento, lembro aos 14 anos, a minha irmã mais velha me arranjar um trabalho durante o verão onde vivia e trabalhava.  Eu limpava um hospital privado, dirigido por freiras, das 7 da manhã até às 10 da noite.  Eu acredito que minhas irmãs mais velhas me arranjaram estes empregos, a trabalhar como uma escrava, para assim elas saberem onde eu estava todo o tempo para não terem que se preocupar comigo.  Eu não conseguia aguentar e fugia dos empregos.  Eu fazia equilíbrio correndo nas barras do telhado dum prédio de cinco andares onde nós vivíamos.  Os vizinhos tinham medo que algum dia eu caísse e me matasse.  Eu acredito que era uma das minhas maneiras de pedir ajuda mas ninguém sabia como me ajudar.  Eu estava sempre a escapar para os cafés locais para passar o tempo com outros jovens perdidos como eu.

 

Aos 17 anos, minha irmã mais velha levou-me a um psiquiatra jovem, hoje é famoso com um programa na TELEVISÃO onde é apresentador.  Claro que ele só fala de sexo.  Sexo é o seu vício e ele conseguiu adquirir um país inteiro para facilitar a sua doença.  A primeira pergunta que ele fez foi se eu tinha namorado, eu respondi que não.  Então ele perguntou se eu já tinha tido namorado, uma vez mais eu respondi que não, então ele disse-me que minha irmã me levou à consulta porque tinha medo que eu fosse sexualmente activa.  Então ele começou a explicar-me que a maioria das pessoas é sexualmente reprimida.  Ele disse que sexo é normal e o que eu precisava era um namorado.  Ele me disse para o ir ver no seu escritório privado onde ele começou executar actos sexuais em mim.  Uma vez ele levou-me para a casa dele enquanto a esposa dele estava no hospital a ter o segundo filho.  Durou alguns meses.  Está nebuloso como terminou.  Anne Katherine, M.A. no livro dela: "Limites: Onde Você Termina E eu Começo.” Diz: “Um terapeuta é confiado com os segredos íntimos de seus clientes.  Um padre recebe sanções do poder mais alto no universo.  O potencial para dano é enorme.  Para uma pessoa em tal papel, essencialmente o de um protector, cruzar limites sexuais é uma violação séria.  Uma criança, um cliente, um paciente, um seguidor, um adorador, todos são vulneráveis e vão a uma autoridade por necessidade.  Uma acção sexual por um protector é muito confuso mesmo para uma pessoa forte e saudável.  Para alguém vulnerável e em necessidade, tal acção pode ser devastador.  Quando um pai/mãe abusa sexualmente de uma criança isso poderá ter repercussões por décadas ou para o resto da vida.  A confiança está quebrada, a criança assume responsabilidade pelo acto, sua sexualidade é afectada, e o laço está danificado.  Quando um terapeuta, médico, advogado, ou uma pessoa de clero é sexual com um cliente ou adorador, também é incesto.  A confiança está quebrada, o laço é pervertido.  A pessoa que buscou cuidado foi usada para satisfazer as necessidades do protector".  Hoje eu sei quais eram as minhas necessidades.  Eu não precisava sexo ou um namorado.  O que eu precisava era uma testemunha iluminada para me ajudar com a minha dor e me desse conhecimento, informações e ferramentas para eu lidar e negociar com irmãs e irmãos mais velhos que só eles se sentiam correctos, prepotentes, dominadores e invasores.

 

Aos 20 anos, fiquei grávida.  Eu sentia no meu coração que não podia trazer uma vida nova ao mundo em que eu me encontrava.  Em Portugal o aborto era ilegal e ainda é ilegal hoje.  Eu fui muito afortunada em achar uma parteira que fazia abortos ilegais.  Eu também tive muito sorte que minha família não descobriu.  Se eles tivessem descoberto, eles ter-me-iam forçado a levar a gravidez até ao fim prendendo-me.  Eu sei que minha decisão em fazer o aborto me levou mais íntima com Deus ou minha consciência superior.  Eu sei que se tivesse uma criança sem me libertar primeiro do círculo vicioso ou roda karmica em que me encontrava eu teria caído mais fundo no círculo vicioso ou roda karmica e teria levado comigo uma criança inocente, ter-me-ia distanciado mais de Deus ou minha consciência superior.  Eu nunca teria tido a oportunidade de deixar Portugal onde eu nunca teria adquirido as informações que eu precisava para me ajudar a libertar.  Eu sempre soube em meu coração que para me libertar, eu teria que deixar minha a família e Portugal.  Eu Gosto de compartilhar esta resposta que Dr. Deepak Chopra deu a um questionador no seu Website: (Pergunta: "O que acha você em relação ao que Deus pensa sobre o aborto"?  Resposta: "Só podemos ter conhecimentos dos sentimentos de Deus sobre o aborto do nosso próprio nível de consciência.  Se nós estamos focalizados na Resposta Reactiva, então a visão de Deus do aborto para nós estará de acordo com as leis de julgamento e rectidão.  Quando nós alcançamos a união com Deus no sétimo nível, nós podemos saber o que Deus sente directamente.  Neste nível a pessoa sabe a verdade da vida além dos limites de tempo e corpo físico.  Acção e comportamento não é visto como boa ou má, é visto como várias expressões de um campo ilimitado de consciência, existência e alegria.  Qualquer acção ou escolha humana é avaliada em termos se nos traz mais íntimo para este despertar de unidade com Deus ou não.  Isso só pode ser determinado olhando dentro do coração de alguém, não olhando para o seu comportamento.  Eu não penso que Deus apoia certas políticas ou outras convicções humanas e repugna outras.  Aborto, como qualquer acção ou decisão humana pode trazer um mais íntimo com Deus ou não.  Não é a categoria de actividade que determina se o traz mais íntimo com Deus, é o amor em seu coração.  Se nós precisarmos especificar o que os sentimentos de Deus são, nós poderíamos dizer que Deus sente alegria e amor por aquelas acções que nos conduzem à proximidade do divino e compaixão e tolerância para com as acções que não o fazem". Amor, Deepak)  Se gostar de ler mais sobre as sete respostas de Deus ou os sete estados de consciência pode ler o livro dele: "Como Conhecer Deus: A Viagem da Alma Em O Mistério dos Mistérios.

 

Dois anos mais tarde, aos 22 anos, eu continuava me sentindo desesperada para conseguir a minha independência.  Minha irmã Marisa chegou a casa depois de uma aula de Inglês numa escola local e me perguntou se eu conhecia alguém que estivesse interessado em ir para Londres, como au-pair, para ajudar uma família com duas crianças pequenas.  Eu olhei para ela e disse sim eu conheço alguém, eu!  Elas não queriam deixar -me ir porque pensavam que eu não seria boa para o trabalho e as deixaria ficar mal mais uma vez.

 

Eu lhes implorei que me dessem esta oportunidade e lá fui para Londres.  Uma vez mais eu me encontrei em uma situação de escrava onde estava a ser explorada e deixei-os dentro de um mês.  Eu encontrei outra família inglesa que me tratou muito bem e fiquei com eles durante um ano.

 

Londres - London

 

Depois disso, eu encontrei um emprego em um hotel pequeno em Londres onde estavam muitos americanos.  Um deles ajudou-me a adquirir um visto para ir para a América.

 

Chegar aos Estados Unidos foi realmente o começo de minha jornada.  Meu primeiro trabalho nos Estados Unidos foi num lar como assistente de enfermeira.  Eu estava ganhando somente para pagar o meu pequeno apartamento.  Naquele verão uma amiga de França que eu conheci num hotel em Londres, veio visitar-me e procurou no jornal local um trabalho para ganhar algum dinheiro para as pequenas despesas e encontrou um trabalho num bar local a dançar.  O anúncio dizia empregada de mesa, nenhuma experiência é necessária mas quando nós chegámos foi persuadida a dançar lá lhe falaram que ela poderia ganhar 200 dollars por noite.   Ela começou a ganhar mais dinheiro em uma noite do que eu em duas semanas!  Eu decidi que também queria ganhar aquele dinheiro como ela e também comecei a dançar.  Pela primeira vez eu tive esperanças de ficar financeiramente independente.  Eu comecei a juntar dinheiro.  Eu também doei ás minhas caridades favoritas que ajudavam o mais vulneráveis em nossa sociedade, as crianças e os animais.  Então pela primeira vez em minha vida eu escutei minha família, e lhes permiti a persuadir-me para dar o meu dinheiro a minha irmã Marisa para investir.  Minha intuição me dizia não, mas eu fiz isto para ter a aprovação.  Pela primeira vez eu estava adquirindo a aprovação delas.

 

Em 1990 derivado à guerra do golfo, o negócio no bar onde eu trabalhava começou a baixar, todos os anos baixava mais um bocado em 1994 as minhas gorjetas tinham baixado muito.  Eu perguntei à minha irmã à cerca das minhas finanças, ela disse que tudo estava bem e não me dizia nada concreto.  Eu fui a Portugal para investigar e descobri que ela tinha desviado o meu dinheiro e à família toda, para alimentar os comportamentos viciados do companheiro dela.  O dinheiro estava todo perdido, e para piorar as coisas, ela tinha-me dado a assinar uma procuração irrevogável.  Quando assinei, não tinha percebido o que tinha assinado. Eu tinha-lhe dado poderes sobre minha vida.  Eu voltei para os Estados Unidos com meu coração partido não sabendo o que fazer a seguir.

 

Mais uma vez eu estava fantasiando sobre o suicídio e estava sentindo o desespero de como quando eu vivia em Portugal.  Eu não tive nenhuma ideia a onde ir pedir ajuda.  Um dia eu telefonei para o número de crise da lista telefónica, foi o telefonema mais difícil que eu já fiz.  Eles deram-me um número de telefone para um terapeuta.  Eu fui, mas ele não teve uma explicação ou respostas porque razão a minha vida se estava desfazendo.  Depois de ir algumas vezes decidi que ele não tinha respostas e não sabia como me ajudar.  Ele estava só tirando o meu dinheiro e deixei de ir vê-lo.  Eu queria muito compreender porque nada em minha vida estava funcionando novamente.

 

Um dia eu estava no apartamento do meu namorado, ele e o seu companheiro de apartamento estavam ambos bêbedos e rudes, esta era já a minha terceira relação disfuncional. Em relações passadas quando eu não me sentia amada, depois de visitar a minha família em Portugal e de ver todos os meus irmãos e irmãs em relações de não amor, disfuncionais eu dizia para mim: eu não quero acabar como eles eu antes quero estar só do que estar com alguém que não é capaz de me amar e assim que chegava aos E.U.A. separava-me da pessoa com quem mantinha um relacionamento.  Geralmente cerca de um ano depois de estar só eu conhecia alguém de novo que parecia ter todas as qualidades para construir uma relação amorosa, mas depois de algum tempo encontrava-me numa situação igual a todas as outras, a única diferença nesta última relação é que eu não conseguia sair dela, eu queria muito que funcionasse, mas não podia funcionar, eu sentia-me presa, como um fracasso, sem amor, não desejada e rejeitada, mas agora eu não conseguia partir, e se partisse voltava, ou deixava-o voltar.  Até que a certa altura eu quis saber porque razão continuava atrair homens que eram emocionalmente indisponíveis, aí eu questionei-me mais uma vez o porquê de estar aqui, como é que nós chegamos aqui.  A dada altura eu ouvi uma voz a dizer-me para ir a uma livraria, então levantei-me ao que o meu namorado perguntou, “onde vais”?  “Vou a uma livraria”!  Ele ficou surpreendido pois eu não era muito de ler, na minha juventude nunca tinha desenvolvido o gosto pela leitura, os poucos livros a que tive acesso nunca tocaram a minha alma.  Quando eu cheguei à livraria, caminhei directa a um livro com o título “CODEPENDENTE NUNCA MAIS” de Melody Beattie, na ocasião eu não sabia o que a palavra codependente significava, comecei a ler o livro pensando que seria bom para minhas irmãs, por causa do subtítulo “COMO DEIXAR DE CONTROLAR OUTROS E COMEÇAR A CUIDAR DE SI MESMO”, mas quando o comecei a ler eu vi como precioso era este livro também para mim.  Fui para casa e fiquei acordada toda a noite a ler, este livro tinha respostas que eu procurei toda a minha vida, então percebi que estava a explorar uma parte de mim em que nunca tinha entrado, aí comecei a chorar enquanto lia e não era capaz de parar pois tinha iniciado uma viagem ao meu passado e tinha que continuar esta tarefa, era difícil de recordar a dor e o trauma da minha infância e juventude, chorei durante um ano inteiro.  Como diz Jean Jenson no livro dela Reclaiming Your Life: Step by Step Using Regression Therapy to Overcome Effects of Childhood Abuse diz: “A verdade fá-lo-á livre, mas primeiramente fá-lo-á miserável.”  Fiz o luto de minha família, minha infância perdida, juventude, minhas relações falhadas e todas as minhas perdas financeiras, eu tinha reprimido aquela parte de mim.  Sentia-me envergonhada pois era vergonhoso mas nessa altura eu já não podia continuar a reprimir e a esconder mais pois estava a começar a compreender.  Quando eu comecei a aplicar os princípios que estava aprendendo em terapia, passei a ver como atraía homens que me tratavam igual como a minha família de origem me tratava.  Minha dor de infância é de solidão, isolamento, não me sentia reconhecida, era infeliz, triste, vulnerável, estava ferida, sabia que algo estava perdido, errado, não era desejada e tinha medo, era assustador o sentir que não era amada.  A pior parte era que ao sentir aquela dor do passado, pensava que ia ser assim para sempre!  Enquanto sentia a tristeza do fim duma relação eu via sabia que não havia esperança de continuar a esperar e ao mesmo tempo querer estar com esta pessoa, eu percebi a semelhança com a minha infância e juventude onde o meu desespero e tristeza existiam.  A terapia deu-me ferramentas para viver um dia de cada vez e reconhecer situações insalubres e cuidar melhor de mim.

 
Lendo o livro, “Guia para codependentes dos Doze Passos”de Melodia Beattie, ela recomendava a ler o livro "Thou Shalt Not Be Aware: Society's betrayal of the child" de Alice Miller. Eu fiquei muito interessada no livro por causa do subtítulo "a traição da Sociedade à criança" porque quando crescia em Portugal eu me sentia traída por toda a gente.  Ao ler seus livros eu me libertava do sentimento de culpa que carregava estes anos todos comigo.  Eu já não sinto que os problemas familiares são minha culpa, não sinto que merecia o que me aconteceu. Eu encontrei minha primeira testemunha iluminada quando eu tinha 36 anos (1995).  Ninguém deveria ter que esperar tanto tempo para encontrar uma testemunha iluminada.  Nos últimos oito anos eu senti muitas emoções dolorosas reprimidas.  Meu ex-namorado era muito bom a despertar essas emoções e a deixar-me só com minhas emoções dolorosas como minha família de origem fez.  Claro que eu agora compreendo, que ele e ninguém pode tolerar estar na presença de alguém em dor se eles não aprenderam estar e trabalhar pela sua própria dor.  Eu agradeço que minhas testemunhas iluminadas vieram por livros porque entendendo o que se passava ajudou-me a passar isto.  Foi uma jornada muito só, mas ao mesmo tempo, eu estou agradecida e sinto-me muito afortunada pela oportunidade de ter este tempo só com os meus sentimentos e sentir minhas emoções reprimidas, assim eu pude curar sem ninguém interferir.  Solidão, livros e meus gatos foram meus melhores amigos.  Os únicos seres que estiveram comigo por isto tudo foram meus gatos. Alguns dias o amor por meus gatos era a única coisa que me transportava.  Eu sempre odiei quando as pessoas em Al- Anon (um programa de 12-passos para os amigos e família de alcoólicos) me diziam que eu encontrava a ajuda que eu precisava quando eu estivesse pronta.  Eu sinto que eu estava pronta desde que consigo me lembrar.  Eu vou sempre perguntar-me como seria minha vida se eu tivesse encontrado uma testemunha iluminada muito mais cedo.  Hoje estou muito agradecida por não ter filhos.  Sinto-me grata por não passar este mal e sombra aos outros, como meus irmãos e irmãs fizeram, agora eu vejo minhas sobrinhas e sobrinhos a passa-lo para suas próprias crianças.  Eu arrepio-me todas as vezes que vejo pessoas a terem filhos sem reconhecer primeiro e assumir responsabilidade pelo seu próprio mal e sombra.  Eu sempre me perguntei por que é que as pessoas em ciclos viciosos dolorosos trazem crianças a uma vida de sofrimento.  Hoje eu tenho a resposta do livro de Alice Miller: “'For Your Own Good: Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence.''  É que: "pais têm a necessidade inconsciente para passar para os outros a humilhação que sofreram e a necessidade para encontrar uma saída para a repressão."  Eu comprei todos os seus livros.  Os livros dela são os mais iluminados.  Eu nunca vi ninguém falar a verdade como ela.  A maioria das pessoas anda em bicos de pés ao redor da verdade têm muito medo de enfrentar estas verdades dolorosas.  Nosso mundo precisa de mais pessoas com a coragem dela. Eu sempre me sentia tão só com as minhas percepções.  Eu precisava muito ter uma testemunha como ela a meu lado.  Dá-me alegria saber que há outras pessoas capazes de ver e falar a verdade.  Eu estou muito agradecida pelos os livros dela porque eu nunca poderia articular e expressar a verdade em palavras como ela.  Estas palavras do livro dela:  "O Drama da Criança Bem Adoptada" expressa exactamente como eu me sinto hoje:  O mundo não mudou, há muito mal e mesquinhez à minha volta, e eu vejo isso mais claramente do que antes.  Apesar disso, pela primeira vez eu acho que viver vale a pena.  Talvez porque eu tenha a impressão de estar vivendo a minha própria vida pela primeira vez, o que é uma aventura emocionante.  Mas agora eu compreendo melhor minhas tentativas de suicídio, principalmente na juventude.  Parecia não ter sentido continuar a viver... porque de uma maneira tinha estado a viver uma vida que não era a minha, que não queria e estava pronta para deitar fora.

 

Desde que eu me lembro, sabia que havia algo muito errado com as pessoas em meu mundo.  Agora eu entendo o porquê.  Não porque elas são más pessoas, mas porque elas também foram vítimas da sua criação e elas sofrem das doenças de vicio e Codependência.  Eu agora compreendo que fui afectada de estar envolvida toda a minha vida com viciados e codependentes e que eu também precisava de recuperação.  Eu permiti à minha família convencer-me que eles eram superiores, melhores, mais inteligentes e que eles sabiam o que era melhor.  Hoje eu sei que nós somos todos iguais e que ninguém sabe o que é melhor para nós, só nós o sabemos.  Todos nós sofremos do mesmo mal.  Hoje a única diferença entre minha família e eu, é que eles estão em negação de que foram afectados da forma como foram criados, e eu não estou. Desde então tenho lido muito.  Eu sei que nunca vou deixar de ler até ao dia em que morra.  Agora eu vejo o meu propósito na vida muito claro.  Eu estou muito agradecida.  A razão porque fui para os Estados Unidos foi para recuperar dos efeitos de crescer debaixo de uma ditadura com uma família muito de disfuncional.  7 De Abril de 2000 eu nacionalizei-me Americana e mudei meu nome para me libertar de minha irmã Marisa e a família.

 

No verão de 2000, eu fui a Portugal e tentei contactar a comunicação social.  Eu queria ir publicamente com as minhas experiências e descobertas, para elevar a consciência sobre todas as formas de abuso de crianças, Codependência, dislexia, e o profissional não tratado. Eu nunca adquiri uma resposta.  Portugal é um país muito fechado, cheio de segredos, e a comunicação social tem medo de falar sobre segredos, especialmente se envolve um doutor famoso.  A comunicação social em Portugal protege as pessoas com poder.  Como Alice Miller no livro dela “Demolindo as Paredes de Silêncio: A Experiência Libertadora de Enfrentar Verdades Dolorosas. Diz: “A toda tentativa para compartilhar as descobertas novas que eu fiz com o público, eu encontrei a mais determinada resistência por parte da comunicação social.  É verdade que eu posso continuar a publicar estas descobertas em meus livros, porque meus editores já estão conscientes do interesse crescente neste tópico.  Mas há outras pessoas que têm coisas importantes para dizer, e elas estão dependentes na imprensa.  Eles e seus leitores confiam em informação essencial que não é deturpada.  Porém, muito frequentemente a comunicação social sustentam a parede de silêncio contra todos esses que começaram a confrontar a própria repercussão de sua infância.”

 

Quando vivia em Arizona tentei ajudar numa prisão de Mulheres, Perryville em Goodyear, AZ, Ajudando os ocupantes a lidar com seus padrões codependentes.  Como a Alice Miller disse no livro dela: ‘A Verdade Liberta’: "Superando a Cegueira Emocional e encontrando o Seu Verdadeiro Eu Adulto” “ Todo criminoso foi humilhado, negligenciado, ou abusado em criança, mas poucos deles podem admitir isso".

 

Eu também trabalhei em ALATEEN com adolescentes que foram afectados pelos seus pais e tutores viciados e codependentes.

 

ALATEEN

 

Há esperança, e há ajuda em qualquer idade para quem a deseja.  Aqueles que viveram deste modo podem aprender a compreender e finalmente libertação.  Eles podem sobreviver e podem achar equilíbrio e felicidade. Eles já não têm que viver as suas vidas mantendo segredos.  Os segredos que nós mantemos nos mantêm doentes.  Nos programas de 12 passos dizem: "nós estamos tão doentes quanto os nossos segredos".  Se nós queremos nos libertar nós temos que enfrentar, reconhecer, articular e sentir as nossas verdades dolorosas.

 

Os nomes das pessoas envolvidas foram alterados para proteger o seu anonimato.

 
Sylvie Shene

 

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