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Sylvie Shene 


 

INTRODUÇÃO

 

Eu sou uma criança adulta de uma família emocionalmente doente.  Uma doença terrível e dolorosa que ninguém nunca quis falar roubou minha infância e de meus irmãos e irmãs, meu pai bebia para lidar com a sua dor emocional e tornou-se num viciado.

 

Sobre Mim - MINHA HISTÓRIA

 

Sobre Mim - DEPOIS DA SEPARAÇÃO

 

Eu na minha ingenuidade ate sorria com as situações disfuncionais que ocorriam no seio da minha família, eu não entendia que tais ocorrências me estavam a afectar na altura e que viriam a manifestar-se no futuro.  Eu tinha enterrado isso, estava fora do meu consciente mas eu estava na minha terceira relação falhada e tendo a minha irmã desviado o meu dinheiro para suportar os comportamentos viciados de seu companheiro eu fui forçada a procurar respostas.

 

As minhas memórias tinham sido enterradas por uma razão, crescer com uma familia emocional doente teve um efeito devastador em mim e em toda a minha família.

 

Quando iniciei uma nova fase em minha vida, julgava ter saído ilesa do convívio com uma família disfuncional.  Dez de nós, três morreram em acidentes trágicos, um irmão ficou incapacitado por causa de um acidente de viação, dois são viciados, nós as quatro raparigas tornamo-nos coviciadas, codependentes, como eu não tinha problemas com álcool ou drogas pensava que estava bem e como milhões de pessoas não entendia porque razão a minha vida tinha sido desarrumada tanto tempo, sempre me culpei e nunca relacionei o meu comportamento actual com o facto de ter crescido numa família emocionalmente doente mas agora eu tinha percebido que os pontos da dor presente estavam relacionados à dor da minha infância e juventude.

 

A minha infância não foi normal.  Eu cresci assistindo ao meu pai a desmaiar por beber demais, enquanto minha mãe rezava e pagava as contas, esperando que um dia isto tudo tivesse um fim e ao mesmo tempo via minhas irmãs e irmãos mais velhos tornarem-se obcecados em controlar os comportamentos de todos.

 

Eu assisti com toda agente a discutir e abusar uns dos outros.  Eu nunca sabia o que ia acontecer a seguir.  Eu não sabia o que era a verdade.  A casa estava cheia de raiva e medo mas nós fingíamos para o mundo externo que tudo estava bem.

 

Eu acreditava que uma vez que deixasse aquele ambiente, minhas dificuldades desapareceriam.  Não foi assim, a dor não foi embora, eu só a reprimi, anos e décadas depois eu ainda transportava o estigma.  A minha infância e juventude foram o meu treino fundamental para a vida, para melhorar eu precisava lidar com a minha infância e juventude, tive que a reviver para me libertar dela pois não havia escape.

 

Hoje nos Estados Unidos há um cálculo de que vinte e oito milhões de crianças são filhos de viciados.  Uma pesquisa mostrou que crianças de viciados têm quatro vezes maior risco de se tornarem viciados.  Peritos culpam uma ligação genética junto com o crescer em um ambiente onde as crianças aprendem a anestesiar a sua dor.  Então e sobre as crianças que não têm um problema com álcool ou drogas, o que acontece com elas?

 

Doença emocional afecta a família inteira.  Eu nunca pensei que poderia ser feliz pois sabia que o que estava acontecendo em nossa casa não era normal mas desejava ter uma vida normal.  Nunca me atrevia a levar amigos a casa porque tinha medo do que poderia acontecer.

 

Crianças de pais emocionalmente doentes nunca têm permissão para ser crianças.  A atenção da família é focalizada no comportamento disfuncional do parente, assim as necessidades e sentimentos da criança são ignorados.

 

Eu odiava o que a doença estava fazer à minha infância e juventude e também à minha família, nunca sabia o que esperar pois nunca confrontávamos nossa realidade.  Quando deixei a família refugiei-me numa vida de fantasia, tinha muita vergonha mas o não enfrentar a realidade ameaçava a minha saúde mental e a minha liberdade, era impossível ficar perto de qualquer outro ser humano e então fiquei só e isolada, pensava em suicido mas não tendo eu problemas de álcool ou drogas pensava que estava tudo bem.

 

Graças a Deus eu tive a grande sorte de encontrar ajuda para mim e quebrar o ciclo vicioso doloroso, humilhação e baixa auto-estima. Doença emocional, é uma doença familiar, e é contagiosa.

 

Eu sempre amei meu pai e toda a minha família com todo o meu coração, só não compreendia, nenhum de nós sabia que era uma doença e que poderia ser tratada.

 

Não era algo sobre o qual se falava.  Não havia nenhum grupo de auto-ajuda nem livros sobre o assunto e nem nenhum tipo de terapia em Portugal para essa doença.  Não era discutido nos meios de comunicação social, todos aqueles que tinham este problema viviam e sofriam em segredo.

 

Meu pai era um homem bom e queria ser o melhor.  Ele nunca desejou ser um viciado, ele nunca disse, "quando crescer, eu vou beber e fumar muito e negligenciar minha esposa e filhos", ele queria ser um bom marido e um bom pai mas por causa da sua doença emocional era-lhe impossível tal comportamento.

 

Minha raiva começou de muito pequenina, muito sono perdido por causa de ansiedade, muita loucura.

 

Durante esses anos minha Mãe ficou nervosa, e insegura.  Ainda penso na frustração que minha mãe deve ter sentido, ela queria fazer algo, mas não sabia o que fazer, era profundamente religiosa mas a igreja dela não fornecia nenhuma resposta.

 

Era tudo tão triste sentir a desintegração de nossa família, era como estar em um navio a afundar-se e não saber nadar.

 

Doença emocional deixa vítimas à sua volta, magoadas e abatidas as vítimas são forçadas a reprimir toda a raiva e ressentimento que cresceu durante os anos de viver com uma familia emocionalmente doente, eles dizem: "Esquece o passado", mas não é possível pois isso queima no fundo da alma.

 

A verdade traz liberdade da dor, liberdade da raiva e finalmente liberdade.

 

Dr. Alice Miller no livro dela, "A Verdade liberta; Superando a cegueira emocional e Encontrando o nosso verdadeiro eu adulto" diz: “o passado apanha-nos sempre, nas nossas relações com as outras pessoas e especialmente com as nossas crianças."  Também Dr. Deepak Chopra diz: "perdoar os outros só é possível quando você poder libertar sua própria dor. Quanto mais completa a sua libertação, quanto mais sincero o perdão.”  Se eu verdadeiramente quero perdoar as pessoas que me feriram, eu tenho que libertar a dor.  O único modo para libertar a dor é enfrentá-la, articula-la e senti-la, até ela acabar.  Se nós somos capazes de sentir, nós somos capazes de curar.  Nós temos que enfrentar a dor em nossas vidas.  O único modo de nos libertar-mos é através dela.  Nada no mundo exterior, nenhuma religião, nenhum grupo político, nenhum trabalho, nenhuma relação e nenhuma quantia de dinheiro podem nos salvar da dor de nosso passado, enquanto nao caminharmos pela a nossa dor, nós continuaremos repetindo, recriando nosso passado no momento presente e não há escape.

 

Foi muito difícil falar sobre minha história, chorei muito, não tinha nenhuma ideia quando comecei este projecto da dor e angústia que eu suportaria ao viajar naquela parte escura de minha alma.

 

No final eu encontrei a resolução, eu não estava mais zangada com minha família, e companheiros, especialmente com minhas irmãs mais velhas, eu os amava, sentia compaixão por eles, de terem carregado uma doença horrível por tanto tempo, eu finalmente compreendia a codependência e vicio como sintomas da doença, e então pude perdoá-los.

 

Eu tinha sido afectada pela doença, como tinha sido toda a minha família.  Os pedaços do puzzle estavam começando a encaixar, o alívio era enorme.

 
Neste momento eu poderia guardar minha história, tinha completado minha tarefa pessoal mas interrogando-me, “onde estão os milhões de crianças que estão sofrendo sós e em silêncio, amedrontados da noite e do dia, os milhões de crianças que sofrem violência e abuso emocional e físico como parte de suas vidas diárias, os milhões de crianças que sentem vergonha e que estão fisicamente exaustos e emocionalmente solapados, os milhões de crianças que suportam a humilhação e embaraço de viver com uma pessoa emocionalmente doente”?

 

Eu agora penso em todas as pessoas conduzindo vidas produtivas mas não desfrutando o alívio que vem de compreender um passado problemático, eu sei o quanto difícil vai ser e sinto a necessidade de compartilhar a minha história com o público, ganhei muita sabedoria, sinto a necessidade de compartilhar com outros o que eu aprendi, especialmente em Portugal que permanece uma cultura muito fechada e reservada.

 

Eu compreendo que têm um código de silêncio, um sistema de negação, não querem lembrar-se do passado, está enterrado, assim não pensam nele mas a negação é passada de geração a geração, permite que a doença continue a progredir e assumir isso publicamente pode despertar emoções dolorosas reprimidas e poderá forçar essas pessoas a voltar ao passado mas têm que reviver e lidar com ele para assim poderem começar o processo de curar.  Sei que corro o risco de que venham a projectar as suas emoções dolorosas reprimidas em mim e podem até culpar-me pelo que sentem mas é um risco que eu tenho que correr.

 

Eu tive muita sorte de ir para os Estados Unidos e encontrar a ajuda de que eu precisava, posso olhar para atrás e dizer:  não foi bonito, é duro de contar, difícil de pensar e sentir, mas é a minha verdade pessoal, se ao contar a minha história puder ajudar os outros, então tudo pelo que eu passei tem significado e valor.

 

Há esperança, e há ajuda em qualquer idade para quem a deseja, aqueles que viveram deste modo podem aprender a compreender e finalmente libertação, podem sobreviver, podem achar equilíbrio e felicidade, já não têm que viver as suas vidas mantendo segredos, os segredos que nós mantemos fazem-nos doentes.  Nos programas de 12 passos dizem: “nós estamos tão doentes quanto os nossos segredos.  Se nós queremos nos libertar, nós temos que enfrentar, reconhecer, articular e sentir as nossas verdades dolorosas e não há escape”.

 

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